Franquia ou Licenciamento: qual o melhor modelo

Uma das perguntas que ouço com frequência de empresários que estão avaliando expandir a marca é: preciso necessariamente virar franqueador, ou existe um caminho mais simples? A resposta é que existe outro modelo, o licenciamento de marca, e que a escolha entre os dois tem implicações jurídicas, operacionais e financeiras que definem a trajetória da rede nos anos seguintes.

O licenciamento de marca no Brasil movimentou R$ 23,2 bilhões no varejo em 2023, segundo a Associação Brasileira de Licenciamento (ABRAL). O franchising, por sua vez, fechou 2025 com R$ 301,7 bilhões em faturamento, segundo a ABF. Os dois modelos permitem expandir uma marca com capital de terceiros. O que os diferencia é o nível de controle, suporte e proteção jurídica que cada um oferece ao dono da marca.

RESPOSTA DIRETA

Franquia e licenciamento são dois modelos distintos de expansão com capital de terceiros. No licenciamento, o licenciante cede o direito de uso da marca sem transferir know-how, processos ou suporte operacional. Na franquia, o franqueador transfere o modelo completo de negócio com obrigação de suporte contínuo e controle de padrões. Para quem quer escalar com consistência de marca e receita recorrente de royalties, o franchising é estruturalmente superior. O licenciamento pode ser adequado para produtos específicos ou mercados onde o modelo operacional completo não é aplicável.

O que é licenciamento de marca

Licenciamento de marca é o direito contratual de utilização de uma marca, imagem ou propriedade intelectual que pertença a terceiros, concedido temporariamente em troca de remuneração, conforme definição da Associação Brasileira de Licenciamento (ABRAL). O licenciado recebe o direito de usar a marca em produtos ou serviços específicos. A operação fica sob sua responsabilidade, sem suporte operacional estruturado e sem obrigação de transferência de know-how por parte do licenciante.

O licenciamento é regido pela Lei de Propriedade Industrial (Lei 9.279/1996) e pelo Código Civil, sem legislação específica equivalente à Lei de Franquias. Isso significa menos obrigações formais para o licenciante, mas também menos proteção estrutural sobre como a marca é usada pelo licenciado no dia a dia da operação.

EXEMPLOS DE LICENCIAMENTO

Um fabricante de mochilas que compra a licença da Disney para estampar personagens nos produtos. Um programa de TV como o Big Brother Brasil, licenciado pela Endemol para múltiplos países. Uma indústria de alimentos que usa a marca de um chef famoso em sua linha de produtos. Em todos esses casos, o licenciante cede o direito de uso da marca e recebe royalties. Não há transferência de modelo de negócio, processos ou obrigação de suporte à operação do licenciado.

O que é franquia e o que a diferencia do licenciamento

Franquia é o sistema pelo qual o franqueador autoriza o franqueado a usar marcas e outros objetos de propriedade intelectual, sempre associados ao direito de usar métodos e sistemas de implantação e administração do negócio, conforme Art. 1º da Lei 13.966/2019. A diferença central em relação ao licenciamento está nessa última parte: o franchising não cede apenas a marca, cede o modelo completo de negócio com obrigação de suporte contínuo e controle de padrões operacionais.

O contrato de franquia inclui o licenciamento de marca, mas vai muito além dele. O franqueador transfere know-how, manuais operacionais, treinamentos, sistema de gestão e suporte contínuo. Em contrapartida, o franqueado segue os padrões definidos pela rede e paga royalties, taxa de franquia e fundo de marketing. A relação é muito mais estruturada do que no licenciamento e tem proteção legal específica pela Lei de Franquias.

Comparativo direto: franquia vs. licenciamento em seis dimensões

A decisão entre os dois modelos raramente é óbvia à primeira vista. O comparativo abaixo apresenta as diferenças reais em cada dimensão que impacta o resultado do empresário que quer expandir a marca.

Dimensão Licenciamento Franquia
O que é cedido Direito de uso da marca em produtos ou serviços específicos Marca + know-how + processos + sistema de gestão + suporte contínuo
Controle da operação Baixo. O licenciado opera com autonomia e sem suporte estruturado Alto. O franqueador define padrões e audita o cumprimento continuamente
Proteção da marca Limitada. Licenciado pode usar a marca de forma inconsistente sem obrigação de padrão Alta. Padrões visuais e operacionais contratualmente definidos e auditáveis
Receita do dono da marca Royalties sobre vendas ou valor fixo por licença concedida Taxa de franquia (inicial) + royalties recorrentes + fundo de marketing
Legislação aplicável Lei de Propriedade Industrial (Lei 9.279/1996) e Código Civil. Contrato deve ser registrado no INPI para ter validade perante terceiros Lei 13.966/2019 (Lei de Franquias). Obriga COF com 10 dias de antecedência, transparência total e suporte estruturado
Complexidade de implantação Menor. Contrato mais simples, sem obrigação de COF ou suporte operacional Maior. Exige formatação completa: COF, contrato, manuais, sistema de gestão e estrutura de suporte

Legislação: o que cada modelo exige juridicamente

A diferença jurídica entre os dois modelos é uma das mais relevantes para o empresário que está escolhendo como expandir. Cada modelo tem obrigações distintas e consequências diferentes em caso de descumprimento.

LICENCIAMENTO — EXIGÊNCIAS JURÍDICAS

Regido pela Lei de Propriedade Industrial (Lei 9.279/1996) e pelo Código Civil

Contrato deve ser registrado no INPI para ter validade perante terceiros

Sem obrigação de COF nem prazo mínimo de entrega de documentos ao licenciado

Sem legislação específica equivalente à Lei de Franquias — menos burocracia, mas também menos proteção estrutural para o licenciante

FRANQUIA — EXIGÊNCIAS JURÍDICAS

Regido pela Lei 13.966/2019 com obrigações específicas para o franqueador

COF obrigatória, entregue ao candidato com mínimo 10 dias antes da assinatura

Registro no INPI não obrigatório, mas contrato tem validade entre as partes sem ele

Descumprimento das obrigações legais autoriza o franqueado a pedir anulação do contrato e devolução de todos os valores pagos

Quando o licenciamento faz sentido

O licenciamento é o modelo adequado em situações específicas onde o objetivo é ceder o uso da marca para um produto ou mercado sem a intenção de replicar um modelo operacional completo. Fora dessas situações, o licenciamento tende a oferecer proteção insuficiente para o dono da marca.

Licenciamento de produtos

A marca é forte o suficiente para agregar valor a produtos de terceiros sem que o dono precise controlar como esses produtos são fabricados ou comercializados. O objetivo é receita de royalties sobre vendas, não expansão de um modelo de negócio.

Expansão em mercados inacessíveis

Mercados internacionais ou segmentos onde o modelo operacional completo não é aplicável e onde o objetivo é presença de marca, não replicação de negócio. Mais comum em segmentos de mídia, entretenimento e moda.

Marca com valor independente do serviço

Quando o valor da marca está no reconhecimento do nome ou personagem, não no modelo de negócio associado a ela. O licenciado compra a emoção que a marca representa, não um sistema operacional.

Quando o franchising é o modelo correto

Para a grande maioria dos empresários que querem expandir um negócio de serviços, alimentação, educação, saúde ou varejo, o franchising é o modelo estruturalmente correto. A diferença está na natureza do que está sendo expandido: não apenas uma marca, mas um modelo de negócio completo que precisa funcionar de forma consistente em múltiplas unidades e diferentes mercados.

1

O resultado depende de como a operação é feita

Quando o valor entregue ao cliente final depende de processos, treinamentos e padrões de atendimento, o licenciamento não garante que esses padrões serão seguidos. O franchising cria a obrigação contratual e o sistema de auditoria para garantir consistência.

Exemplo

Uma clínica estética que depende de protocolos específicos de atendimento. O licenciamento não garante que o licenciado vai seguir esses protocolos.

2

O objetivo é construir receita recorrente e crescente

O franchising combina taxa de franquia (receita de entrada por cada novo franqueado) com royalties mensais recorrentes sobre o faturamento de toda a rede. Quanto maior a rede, maior a receita recorrente. O licenciamento tende a gerar receita menos previsível e mais dependente do desempenho individual do licenciado.

Impacto

Uma rede com 30 franqueados tem receita de royalties previsível mês a mês. Um licenciante com 30 licenciados tem receita variável e de difícil projeção.

3

A reputação da marca depende da operação do terceiro

Quando uma unidade mal gerida prejudica a percepção da marca inteira, o licenciamento não oferece base contratual suficiente para exigir padrão e aplicar penalidades. O franchising cria obrigações explícitas de padrão com instrumentos contratuais de enforcement.

Impacto

Um restaurante licenciado com mau atendimento prejudica a marca da rede inteira sem que o dono tenha instrumentos contratuais suficientes para intervir.

O risco de confundir os dois modelos

Existe um risco jurídico específico que poucos empresários conhecem: um contrato de licenciamento que na prática funciona como franquia pode ser requalificado judicialmente como franquia, obrigando o licenciante a cumprir todas as exigências da Lei 13.966/2019 retroativamente, incluindo a entrega da COF. Se a COF não foi entregue no prazo legal, o licenciado pode pedir a anulação do contrato e a devolução de todos os valores pagos.

QUANDO UM LICENCIAMENTO VIRA FRANQUIA NA PRÁTICA

Conforme análise do Jusbrasil, a linha entre licenciamento e franquia se torna borrada quando o licenciante oferece mais do que o direito de usar a marca. Os elementos abaixo, quando presentes em um contrato de licenciamento, podem configurar uma relação de franquia:

!

Treinamento extensivo fornecido pelo licenciante

!

Suporte operacional contínuo ao licenciado

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Imposição de práticas de negócio detalhadas

!

Controle sobre gestão e operação do licenciado

Perguntas frequentes

No licenciamento, o licenciante cede apenas o direito de uso da marca em produtos ou serviços específicos, sem transferir know-how, processos ou obrigação de suporte. Na franquia, o franqueador transfere o modelo completo de negócio com suporte contínuo e controle de padrões operacionais. O contrato de franquia inclui o licenciamento de marca, mas vai muito além dele em escopo, obrigações e proteção jurídica para o dono da marca.
Sim, o licenciamento exige menos burocracia formal do que o franchising. Não há obrigação de COF nem prazo legal de entrega de documentos. O contrato de licenciamento precisa ser registrado no INPI para ter validade perante terceiros. Mas essa simplicidade tem custo: o licenciante tem menos controle sobre como a marca é usada e menos proteção jurídica quando o licenciado não segue as diretrizes estabelecidas.
É possível, mas a migração tem custos e riscos. Licenciados que já operam com autonomia precisam adaptar sua operação às exigências do modelo de franquia, o que frequentemente gera resistência. Além disso, se o contrato de licenciamento já previa suporte ou treinamento extensivo, pode ter sido requalificado como franquia na prática, criando passivo jurídico retroativo. Para quem quer construir uma rede estruturada desde o início, começar com o modelo correto de formatação de franquias é mais eficiente do que corrigir depois.
Para negócios de serviço, alimentação, educação e saúde, o franchising tende a gerar receita significativamente maior no longo prazo. A combinação de taxa de franquia (receita de entrada) com royalties mensais recorrentes sobre o faturamento de toda a rede cria uma curva de receita crescente à medida que a rede expande. O licenciamento gera royalties, mas sem a estrutura de taxa de entrada e sem o controle sobre o desempenho do licenciado que o franchising oferece.
Não. O licenciamento oferece proteção jurídica sobre o uso do nome da marca, mas não sobre como a operação é conduzida pelo licenciado. Se um licenciado atende mal, usa a marca de forma inconsistente ou prejudica a reputação da rede, o licenciante tem menos instrumentos contratuais para intervir do que um franqueador. O franchising cria obrigações explícitas de padrão com mecanismos de auditoria, penalidades e rescisão bem definidos juridicamente.

SOBRE O AUTOR

Danilo Pace é sócio-proprietário da Inova Franquias e especialista em franchising com mais de 10 anos de atuação exclusiva na formatação e expansão de redes de franquias. Bacharel em International Business pela PUC-Campinas e certificado em Empreendedorismo em Economias Emergentes pela Harvard University, conduziu pessoalmente projetos de formatação em segmentos como alimentação, saúde, beleza, educação e serviços em todo o Brasil. Antes de fundar a Inova, acumulou oito anos como Program Manager na DHL, onde desenvolveu habilidades em gestão de projetos de alta complexidade e operações em escala. Conecte-se com Danilo no LinkedIn.

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